Culturas diferentes não podem ser comparadas. Não há o certo e o errado: o que existem são modelos diferentes, que servem à culturas diferentes. Coloque compaixão em seu olhar. E respeite. 

 
 

Apesar do aviso de que o filme é uma obra de ficção e qualquer semelhança com personagens é mera coincidência, muitos afirmam que "Guru" foi inspirado na história de Dhirubhai Ambani - um dos homens mais ricos da Índia, falecido em 2002. É fato que existem semelhanças, mas certamente não é a vida de Ambani que é retratada no filme.

O filme mostra a trajetória de Gurubhai, que sai de uma pequena vila do estado de Gujarat (estado da família do meu marido) e tornar-se um empresário bilionário do ramo de polyester. A história começa em 1951, logo após a independência da Índia (15 de agosto de 1947). É interessante observar os aspectos históricos - como o cenário de Mumbai (ainda chamada Bombay na época), tão diferente da cidade que conheci no início deste ano.

 

Gosto das histórias dos filmes indianos, gosto da dança e das músicas, mas o que mais me chama a atenção são os aspectos culturais.

Dois elementos de destaque nesse sentido:

  • O mocinho escolhe a esposa por causa do dote, porque queria investi-lo num negócio. Apesar de, para nós ocidentais, essa relação de "mercadoria" espantar, a mulher não é retratada como submissa. Muito pelo contrário, como grande parte dos filmes indianos, a mulher é bem resolvida, forte e voluntariosa. Nesse filme, até por retratar a cultura de meados do século XX, apesar de importante, a mulher vive à sombra do marido. Nada diferente do que se tivéssemos a história de um grande empresário de São Paulo filmada na mesma época - aliás, o contexto me lembrou muito a história do Sílvio Santos.
    Mulher como mercadoria também não é algo longe da nossa realidade, não é mesmo? Apenas aqui isso não é declarado, e a gente gosta de acreditar que não acontece. O que também não quer dizer que a união não possa bem sucedida: quem pode dizer, por exemplo, que Michel e Marcela não são um casal feliz?   

 

  • "Os fins justificam os meios". Tenho muita dificuldade em falar sobre empresários e mundo dos negócios sem fazer julgamentos de valor. Existe toda uma questão ética, que me é muito cara, de pano de fundo. Ao que parece, na Índia, como no Brasil, a corrupção é inerente aos negócios: seja pela burocracia das leis, que praticamente impedem que se cresça sem burlar algumas (ou muitas) regras. Quando meu marido conta como as coisas funcionam na Índia, me lembro do Brasil nos anos 80/90, quando a corrupção era mais generalizada. Ok, hoje a corrupção ainda é generalizada, mas digamos que mais sofisticada. Naquela época, você podia comprar a carteira de motorista sem dificuldades, e bastava molhar a mão do funcionário público para passar na frente na fila ou conseguir um papel que precisava. Hoje as coisas já não são bem assim: existe organização e controle. É bem arriscado, por exemplo, oferecer dinheiro ao agente de trânsito se for pego no bafômetro. Antes era algo bem mais natural. Prefiro não falar mais sobre esse assunto, para evitar cair em julgamentos morais. Mas fica o tópico para reflexão.          

 

Mais sobre o filme: Guru (20017 film)

Bônus: casa da família do Dhirubhai Ambani em Mumbai, que dizem ser uma das residências mais caras do mundo.

 

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